quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Pensamento...

Ondas de solidão…
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Se possuísse uma canoa e um papagaio, podia considerar-me realmente como um Robinson Crusoé, desamparado na sua ilha. Há, é verdade, em roda de mim uns quatro ou cinco milhões de seres humanos. Mas, que é isso? As pessoas que nos não interessam e que se não interessam por nós, são apenas uma outra forma da paisagem, um mero arvoredo um pouco mais agitado. São, verdadeiramente como as ondas do mar, que crescem e morrem, sem que se tornem diferenciáveis uma das outras, sem que nenhuma atraia mais particularmente a nossa simpatia enquanto rola, sem que nenhuma, ao desaparecer, nos deixe uma mais especial recordação. Ora estas ondas, com o seu tumulto, não faltavam decerto em torno do rochedo de Robinson - e ele continua a ser, nos colégios e conventos, o modelo lamentável e clássico da solidão.
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Eça de Queirós, in 'Correspondência'
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Realmente, às vezes pergunto-me como é possível sentirmo-nos tão sós e desamparados quando, olhando à nossa volta, nos vemos rodeados de imensas pessoas que, supostamente, deveriam impedir que a sensação de solidão nem oportunidade tivesse de espreitar o nosso Mundo...
Será que o ser humano, por muitos amigos que possa ter, por muitas pessoas que possa conhecer, por muitos lugares que possa visitar ou mesmo muitos sorrisos trocar, tem obrigatoriamente de sentir que a Solidão o acompanha, mesmo estando no meio de uma multidão?

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